Coronavírus: como mudou o nosso sono na pandemia

08 de janeiro, 2021

Coronavírus: como mudou o nosso sono na pandemia

Acabou 2020, mas o Coronavírus continua aí. Enquanto não passamos por uma campanha de vacinação em massa para toda a população, é preciso permanecer alerta e cuidar de nós mesmos e daqueles que estão ao nosso redor com o uso de máscara, distanciamento social e higienização constante das mãos. E com tantas novas informações e preocupações, como fica o sono na pandemia?

Uma pesquisa do Ministério da Saúde mostrou que 41,7% dos entrevistados apresentaram distúrbios do sono durante a pandemia, tais como dificuldade para pegar no sono ou despertar. 

Essa alteração dos padrões noturnos também foi percebida na pesquisa Acorda, Brasil!, desenvolvida a pedido do Persono, conduzida pela plataforma de human analytics da MindMiners – empresa de tecnologia e coordenada pela consultoria Unimark/Longo. 57% das pessoas disseram estar dormindo menos ou pior desde março, mês em que a pandemia foi decretada.

Por outro lado, o fato de estar em casa por mais tempo favoreceu o sono para 23% da população brasileira.

Falta de compromisso com o sono na pandemia

A perda de compromisso e menor responsabilidade com rotinas e horários são alguns dos motivos para o agravamento dos quadros de insônia e queda na qualidade do descanso. Quem explica é o neurologista do Hospital de Urgência de Sergipe (Huse), Marcelo Paixão.

“Muitos pacientes já tinham um padrão de ansiedade e personalidade que buscasse atenção e um controle da sua rotina, mas na quarentena não tinham esse controle. Não tinham disciplina porque muitos foram para home office, afastados do trabalho. A falta de compromisso fez com que eles adotassem a higiene do sono inadequada, dormindo em horários variados, cochilando, dormindo até mais tarde. Não há aquele ciclo de atividades que é acordar, pegar o carro, trabalhar, voltar para casa.”

Paixão também disse que o medo do desconhecido, pensamentos reentrantes e “ruminações mentais” apenas contribuíram para um prejuízo ainda maior do sono na pandemia.

Rosa Hasan, coordenadora do Laboratório e Ambulatório do Sono do Instituto de Psiquiatria (IPq) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, também falou sobre o impacto do estresse em 2020 e como as variadas preocupações com a saúde e a economia têm impactado a nossa rotina noturna. 

Aliás, não somente a nossa, como a da população em geral. Uma pesquisa da USP mostrou que os profissionais de saúde da linha de frente contra a pandemia também têm sofrido com um sono pior.

O coronavírus está afetando até o sonho das pessoas

Em um artigo, a psicóloga do sono Michelle Drerup levantou outra potencial vítima dos distúrbios do sono na pandemia: os nossos sonhos. 

Segundo ela, a conexão entre ansiedade e sonhos estranhos é relativamente comum em situações altamente estressantes e já havia sido notada nos Estados Unidos após os atentados de 11 de setembro de 2001.

“Nós ainda não sabemos muito sobre o porquê nós sonhamos”, ela explica. “Uma das teorias é que é uma forma de processar o que aconteceu ao longo do dia. (…) Nem sempre eles fazem sentido, pois são fragmentos de outras coisas, mas quando estamos inundados de informações estressantes, isso pode aparecer nos nossos sonhos”. 

Ainda de acordo com a Dra. Drerup, uma das maneiras de tentar “limpar” os sonhos e evitar ler ou assistir às notícias antes de ir pra cama. “Ao invés, busque atividades mais relaxantes e desconecte”.

Rotina: o segredo do sono (não apenas) na pandemia

A rotina de sono naturalmente também sofreu alterações em relação aos “tempos normais”, mas é importante que ela continue existindo.

Criar um “roteiro de ir pra cama“, e sobretudo seguí-lo, é essencial para preservar a saúde do nosso sono em momentos de incerteza. Essa rotina não necessariamente precisa ser idêntica àquela que você seguia até março, mas precisa existir.

Por exemplo, se antes você acordava às 7 horas para pegar o ônibus e agora está de home office, tudo certo se preferir despertar um pouco mais tarde. Esse novo horário, porém, deve ser seguido todos os dias, incluindo no fim de semana, para criar o hábito.

O mesmo vale para a hora de ir para a cama ou começar o seu processo de descanso. O segredo está no padrão. E bons sonhos, durante ou depois da pandemia.

O que mais você precisa saber sobre o sono na pandemia

Achou que tinha acabado? Tem mais informações sobre o seu descanso em tempos de Covid-19.

A preocupação com o sono aumentou com o Coronavírus

Um estudo recente mostrou uma correlação importante entre os dias com mais mortos em decorrência do Covid-19 e as buscas no Google por insônia. 

Isso mostra que os “sintomas deveriam ser parte fixa durante anamneses de saúde mental, sobretudo em tempos de pandemia”, explica a Dra Alejandra Lastra, Professora Assistente na Divisão de medicina Pulmonar, Cuidados Intensivos e Sono no Centro Médico da Rush University, em Chicago.

Ela ainda alerta para a preocupante pouca educação que os profissionais da saúde recebem sobre medicina do sono durante o período universitário, o que acaba dificultando diagnósticos já no atendimento primário.

“Quanto mais se demora a tratar os sintomas da insônia, mais chances eles têm de se tornarem crônicos e, por isso, mais difíceis de tratar”, explica.

Cuidado com o uso indiscriminado dos remédios para dormir

No mesmo artigo mencionado anteriormente, A Dra. Lastra alerta para o aumento de prescrições de antidepressivos, ansiolíticos e remédios contra insônia desde o começo de 2021. 

O uso de medicações contra ansiedade, por exemplo, subiu 34,1% nos Estados Unidos entre fevereiro e março. 

Esse aumento dos “anti-insônia”, usados para induzir ou manter o sono é “preocupante”, mesmo naqueles vendidos sem prescrição, pois eles podem desencadear efeitos colaterais graves, além de dependência em alguns casos.

Apneia do sono pode ser considerada comorbidade da Covid-19?

A questão foi levantada em pelo Presidente do Instituto do Sono e Professor Titular da UNIFESP Sergio Tufik.

No artigo, o Dr. Tufik explica que “a AOS (Apneia Obstrutiva do Sono) até o momento não foi estabelecida como um fator de risco para pacientes com Covid-19. Entretanto, as comorbidades deste distúrbio do sono, como diabetes, hipertensão, obesidade e arritmias foram fortemente associadas com os casos mais severos da doença“. 

É preciso ficar atento também à privação do sono, comumente sentida por pacientes com AOS. “Já foi demonstrado que a falta de sono induz a supressão imunológica o que facilita a susceptibilidade de uma infecção por SARS-CoV-2”.

Ou seja, a falta de sono pode facilitar a infecção e os casos mais graves de Coronavírus.

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